terça-feira, 12 de maio de 2020

Porventura


Empresários, advogados, médicos, economistas, jornalistas, ex-futebolistas, adeptos, adeptos, adeptos..., há comentadores da bola para todos os gostos. Mas os melhores são aqueles a que hoje se dá o nome de políticos: já têm o gostinho da parcialidade e já estão habituados a falar do que não sabem.

O que mais admira, entretanto, é a existência da própria palavra político. Creio que seja um  neologismo para designar aqueles que fazem com tiques de exclusividade o que toda a gente faz por natureza: política.

Não precisamos de políticos. Precisamos de quem saiba fazer política, o que implica, por exemplo,  aceitar a opinião dos outros. Não é "lamentável que um jogador selecção se envolva em política". Lamentável é, porventura, que um comentador da bola acredite nisso. 

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Usar máscara e estar mascarado


Vai-se instalando a ideia de que os portugueses têm tido um comportamento exemplar nesta pandemia. Talvez não seja tanto assim. Basta ir a um hipermercado para verificar que a maioria não sabe o que são dois metros de distanciamento ou, sabendo-o, pensa que o vírus não lhe sai da boca e só viaja quando dois pares de olhos se encontram. Basta um passeio ou meia hora de exercício na rua para perceber que a lei é esperar que seja o outro a desviar-se.

Convenhamos que, neste contexto, os governantes, presidentes, responsáveis e quejandos mostraram ser bons aprendizes e óptimos modelos. Navegando à vista, assistiram por sorte ao início do caos noutros países europeus. Não precisaram de planear: reagiram apenas ou seguiram as directivas da OMS, mesmo as menos brilhantes, como a de não aconselhar o uso de máscaras. Resta saber se esse 'desaconselho' se deve a um preconceito relativamente à inteligência do povinho para as utilizar, se à ausência de máscaras para distribuir.

Os que nos governam têm demonstrado, aliás, o que pensam das máscaras:  uns objectos pouco dignificantes para aqueles que, como eles, são dignos. Enfim, é coisa para outros. Como dizia há dias a segunda figura do Estado Português, a propósito da comemoração do 25 de abril na Assembleia da República, "Então nós íamos mascarados para o 25 de abril?" Talvez ignore que o uso de máscaras serve, acima de tudo, para proteger os outros. Talvez ignore que só com muito esforço 'estar mascarado' tem 'usar máscara' como primeira acepção. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Pra não falar que ninguém fica, não é?


«O peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê a manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo. Então, obviamente que você pode consumir o seu peixinho, não é?, sem problema nenhum, lagosta camarão, tudo perfeitamente são, capitão.»

«Obviamente, de vez em quando fica uma tartaruga, ali na mancha de óleo, para não falar que ninguém fica, não é? Um peixe... Um golfinho pode ficar... Mas tudo bem...» Ó Jorge, vamo almoçar?

Vamo sim, capitão. Mas não tem peixe aqui. Fugiram das redes, os inteligentes. Capitão, pra comer só tem nós. Pra não falar que ninguém fica, não é?

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Epifanias


Representante do que uns designam de realismo sujo e outros apenas de escrita minimalista, Raymond Carver aborda o quotidiano, numa linguagem quotidiana, com uma sobriedade quotidiana.

A proposta é a de uma ausência de literatura. Mas é uma proposta mal sucedida: os doze episódios do livro são percorridos por desempregados, alcoólicos, divorciados e desentendidos, gente fazendo pela vida sob uma pena que, além de dominar os segredos do diálogo e da narrativa, detém a mestria da sua conjugação.

Acresce que resultam epifanias e redenções de pequenas quebras de rotina, de frases simples, de gestos previsíveis. E também aqui há literatura.


Catedral
Raymond Carver
Trad.: João Tordo
2010 (original: 1983)

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Como um cão?


Segundo Trump, al-Baghdadi «[...] morreu como um cão, como um cobarde.» Esta afirmação vem na sequência de outra: «O homem morreu num túnel depois de chorar e gritar.» Antes de mais, gostaria de perguntar-lhe as causas de uma provocação gratuita e que de certeza tem em conta a animosidade de muitos muçulmanos para com os cães. Por que razão baixou ao nível do terrorista que se matou e confundiu justiça, que deve ser exemplo, com o sentimento de vingança, que deve ficar guardado nos corações de cada um?

De seguida, gostaria de perguntar-lhe como sabe ele que «o homem morreu num túnel depois de chorar e gritar». Toda a cena foi filmada a cores e com som como se se tratasse de um filme hollywoodesco a que ele tivesse assistido no conforto do seu sofá? Claro que essa perversidade, por mais desejada que fosse, é impossível. Que eu saiba, aliás, ainda ninguém confirmou essa afirmação desnecessária de um "presidente" sem bom senso.

Por fim, gostaria de informá-lo de que a cobardia é uma construção humana. Um cão luta pela sobrevivência, atacando, evitando ou fugindo. Mas tendo em conta essa estranha associação entre a cobardia e os cães: por acaso foi cobarde o cão que, a crer na sua própria divulgação, encurralou o terrorista?


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Para ser maior

Raskólnikov leva uma vida de extrema pobreza: abandona os estudos por falta de dinheiro, encosta o sono numa almofada de roupa velha, deve já várias rendas do cubículo que habita, come quando calha. Talvez seja tudo isto o alimento para a lição que retira da História: vários grandes homens, como ele crê ser, tiveram de cometer crimes no início da vida para poder cumprir o seu destino. E fizeram-no sem hesitações nem remorsos.

Decide seguir o exemplo e assassinar uma velha agiota, um ser menor, desnecessário, prejudicial à sociedade (um piolho, nas suas palavras) e cujo dinheiro pode ser usado em seu proveito e dos outros. Já de início, no entanto, hesita. E quando finalmente se decide, comete vários erros. O maior dos quais o de assassinar também  a irmã da agiota, que entretanto surge na cena do crime, a casa onde ambas vivem. A atrapalhação é tanta que, embora retire da casa algumas jóias e uma carteira, decide escondê-las até de si próprio.

A obra é uma longa viagem pela mente de Raskólnikov, os temores e as dúvidas que antecedem e, sobretudo, se sucedem ao crime. Talvez, afinal, ele não seja o grande homem que imaginou ser. Talvez por isso mereça o castigo que merecem os homens menores. E é ele  próprio que vai de encontro, aos poucos, desse castigo. O seu percurso é, no fundo, o de descobrir que também é um piolho. E a redenção só acontece no momento em que percebe que um homem banal também pode ser amado.

Crime e Castigo
Dostoiévski
Trad.: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editorial Presença, 2001




terça-feira, 3 de setembro de 2019

Piccolino

«Se conheço bem o meu senhor, ele não poderá passar muito tempo sem o seu anão». Quem o diz é o próprio anão, que vai descrevendo no seu diário o ódio e o nojo que sente pela espécie humana, incluindo ele próprio e os outros anões. No fundo, é o desprezo pela vulnerabilidade que perpassa este grande livro de Pär Lagerkvist (1891-1974).

Num dos antigos principados da actual Itália e numa época do Renascimento onde grassavam a fome, a guerra e a peste, o anão Piccolino é a personificação do mal. A publicação do livro em 1944 e o nosso próprio auto-conhecimento levam-nos a perceber que esse mal é intemporal. O mal é intrínseco à espécie humana.

Com Piccolino percebemos como cada um de nós tem a tendência, por mais longínqua que nos pareça, para comparar e catalogar. Para odiar o melhor porque é melhor. Para odiar o pior porque é pior. Para odiar o igual porque nos repete. Quem não tem um Piccolino dentro de si? Devemos estar sempre vigilantes para que ele não se manifeste.


O Anão
Pär Lagerkvist
Trad.: João Pedro de Andrade (original de 1944: Dvärgen)
Ed.: Antígona


segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

A transparência do essencial


Ainda antes de O Perfume (1985) e A Pomba (1987), Patrick Süskind encetava com este O Contrabaixo (1981) a sua análise do poder de pequenos pormenores e acontecimentos na vida das pessoas.

Pela posição, pela visibilidade e pela função, o contrabaixo dir-se-ia transparente. E, no entanto, é o único instrumento imprescindível, aquele sem o qual todos falhariam numa orquestra. Ele vinca e simboliza a existência do seu intérprete.

Talvez tenha de ser assim com muitos. São sempre necessários aqueles que acendem as luzes com que outros se iluminam. O drama é que não sejam e talvez não possam ser reconhecidos. Como as notas graves com que um contrabaixo é caminho.


El Contrabajo
Patrick Süskind
Trad.: Pilar Giralt Gorina (original de 1981: Der Kontrabass)
Ed.: Seix Barral


terça-feira, 2 de outubro de 2018

Obrigado, Shahnour


La bohème, Je me voyais dèjà, Comme ils disent, La mamma, Que c'est triste Venise, Tous les visages de l'amour, Hier encore... Diz-se que são à volta de mil as canções compostas. Muitas delas poderiam ser a única para não o esquecermos.

Os erros no passado, a mulher, o amor perdido, a vida no seu final, a paixão secreta, o crença no futuro, o sucesso sonhado no quotidiano raso: a sua voz é o inventário das nossas vidas.

Obrigado, Shahnour Vaghinagh Aznavourian, por também teres sido Charles Aznavour.

sábado, 15 de setembro de 2018

Quase tudo isto

Durante alguns anos, Bill Bryson decidiu compreender melhor a "história" do universo, desde o Big Bang até o aparecimento e evolução do homem. E como tinha dificuldade em compreender a literatura sobre os temas em causa, decidiu ser ele a abordá-los.

O resultado é o seu A Short History of Nearly Everything. Escrito por um leigo, é de leitura fácil e estimulante. Também não parece conter grandes incorrecções: as que se encontram são as da própria ciência, que de 2003 para cá, como não podia deixar de ser, foi actualizando as suas incorrecções.

A narração das ideias e descobertas que nos ajudam a compreender o mundo é feita sempre com o foco nas personalidades e contradições, generosidades e ódios, ambições e desapegos dos seus protagonistas. E talvez o maior interesse deste livro esteja mesmo nesta verdadeira história, a"pequena história" dos homens que vêm aumentando o nosso conhecimento de quase tudo.

A Short History of Nearly Everything
Bill Bryson
Black Swan
2004 (1.ª ed.: 2003)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Adolescência roubada

Quatro de agosto de 1944. Vinte e cinco meses após se terem escondido num anexo secreto dos escritórios da Opekta, Anne Frank e mais sete pessoas, entre as quais os pais e a irmã, são descobertos e presos pelos nazis. Com excepção de Otto, o seu pai, todos morreriam nos campos de extermínio para onde foram enviados. Anne Frank e a irmã Margot sucumbiriam ao tifo que alastrou em Bergen-Belsen no inverno de 1944/1945.

Mas não caiu nas mãos dos nazis um pedaço da vida de Anne: o diário que ela manteve entre 12 de junho de 1942, data do seu décimo-terceiro aniversário, e 1 de agosto de 1944. Esquecido no anexo e recuperado mais tarde pelo pai, é o testemunho de uma adolescência roubada. Nele, Anne vai dando conta dos conflitos entre os habitantes confinados ao anexo; das discussões acerca de temas tão díspares como a política, a guerra, as refeições; do uso cuidadoso do autoclismo para não chamar a atenção dos funcionários em baixo; dos sonhos adiados; dos planos para o futuro; da impossibilidade de ter um espaço para si; da tristeza e da esperança; do medo e do alívio. Kitty, a personagem que ela inventa por trás das páginas do diário, é quem que lhe permite lidar com tudo isto.

Na primavera de 1944, Anne Frank começa a rever o seu diário. Tem a intenção de dá-lo a conhecer ao mundo depois da guerra. Esta é a versão dita definitiva, sem os cortes e correcções a que o pai o sujeitaria antes de o publicar em 1947. A descoberta da sexualidade; a atracção por Peter, outro dos habitantes do anexo; a relação difícil com a mãe – tudo aqui volta a ser confessado a Kitty. Tudo aqui é revivido por esta infeliz rapariga que nos retratos nos aparece sempre com um sorriso, um suave e contido sorriso, e cujas palavras nunca desistem da vida.


The Diary of a Young Girl
Anne Frank
Eds. Otto J. Frank, Mirjam Pressler
Trad. Susan Massotty
2012
Original: Het Achterhuis [O Anexo Secreto]

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Descendente de barão

Eulálio d'Assumpção, centenário orgulhoso e descendente de barão, derrama as suas memórias na cama do hospital onde a morte o espera. Repisa-as para não se esquecer de quem é: «Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço de alma, é por esmero. É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar.»

À medida que a medicação e a proximidade do fim lhe vão retirando lucidez, as memórias confundem-se, assim como se confundem aqueles com quem as partilha:  a enfermeira que melhor o trata, os outros enfermeiros e médicos mal-humorados, a filha, alguém que toma pelo pai assassinado há muito. Mas uma dessas memórias serve sempre de esteio a todas as outras: a do inesperado e repentino desaparecimento da sua mulher, a exuberante Matilde de «pele castanha», pouco depois do nascimento da filha de ambos.

O texto de Chico Buarque foge de um modo exímio à narrativa linear, plasmando o pensamento reinventado e confuso do velho moribundo e fixando de um modo natural o preconceito e a arrogância de um homem que se orgulha de descender de gente nobre e importante e que, apesar de tudo, não resiste aos encantos de uma bela mulata.

Leite Derramado
Chico Buarque
2009
D. Quixote

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Adolf e Gustl

August Kubizek e Adolf Hitler conhecem-se, ainda adolescentes, quando assistem a uma ópera em Linz. Estamos no final de 1904 e é o início de uma amizade assimétrica, assente no amor de ambos pela música e numa complementaridade feliz: Adolf precisa de alguém com quem partilhar as suas ideias e fantasias, August é  bom ouvinte e admira o espírito crítico e a confiança em si próprio que o outro demonstra.

No início de 1908, pouco depois da rejeição de Adolf pela Academia de Belas Artes de Viena e da morte da sua mãe, ele consegue convencer o pai de August a deixá-lo prestar provas no Conservatório em Viena. August é bem-sucedido e inicia os seus estudos musicais. Vivem juntos durante cinco meses num quarto infestado e escuro da capital austro-húngara, August seguindo uma educação formal, Adolf estudando e interessando-se literalmente por tudo, apesar de as suas paixões maiores serem a arquitectura e a política. As leituras ávidas, nos livros e na sociedade vienense, apuram o pensamento do futuro Führer.

A aversão a que o contradigam, as dificuldades económicas crescentes, talvez algum mal-estar face ao sucesso de August no Conservatório, precipitam a separação: durante uma ausência daquele, Adolf abandona o quarto que ambos partilham. O reencontro dá-se apenas trinta anos depois, após a anexação austríaca e às portas da Grande Guerra. As ideias e fantasias que Adolf erguera em jovem para o povo germânico estão em vias de concretização. E apesar de August garantir não concordar com muitas delas, é inegável ao longo do texto a amizade e a admiração que nunca deixou de sentir por Adolf Hitler.

The Young Hitler I Knew
August Kubizek
2011
Frontline Books
(Obra Original: Adolf Hitler, Mein Jugenfreund, 1953)

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A primeira maratona de um poeta


Turb(i)-, pode ver-se no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa, é um "elemento de formação de palavras que exprime a ideia de agitação, desordem". À entrada do seu primeiro romance, Chico Buarque apresenta-nos algumas palavras que esse elemento integra. Entre elas: estorvo, distúrbio, perturbação, turvo, turbulência, turbilhão, trovão, atropelo, tropel, torpor, estupor, estropiar.

Um homem bate à porta. Quem será? Lembra alguém. Tem barba. Talvez o protagonista "já tenha visto aquele rosto sem barba, mas a barba é tão sólida e rigorosa que parece anterior ao rosto". Num exercício onírico em que a escrita sobressai face ao enredo, o protagonista vagueia a partir daí, em fuga ou não, em busca ou não, desistente ou não, num mundo estranho. Ou talvez apenas num mundo que é um estorvo porque estorvo são os outros, ele próprio, a vida.

O texto é o da primeira maratona de um poeta: subserviente à narração, a linguagem não dá tréguas ao leitor. Nesse sentido, aqui e ali, a surpresa de me ter evocado uma outra obra cuja filigrana me enredou há uns tempos: "Um Pinguim na Garagem" de um tal de Luís Caminha.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O poder desnudado

O jovem D. Filipe, IV de Espanha, III de Portugal, encontra o paraíso nos braços da cortesã Marfisa. Saber-se-á por palavras desta que o soberano não o é em amores e que ao quarto ensaio nem chegou a arrancar. Mas também se saberá que tem potencial e que mais uns tantos encontros lhe ensinariam a agradar mulheres.

Seja como for, a perfeição para o rei foi o corpo nu da cortesã adormecida. De regresso ao palácio e guloso de beleza, faz a rainha saber que deseja vê-la nua. A novidade tem pavio curto e em breve todo o reino a comenta. E se o povo não acha nisso nada de mais, já na corte soa o alarme para as consequências que tamanho pecado teria nos destinos de Espanha. Deus não perdoa desaforos.

Com fina ironia, vocabulário original e narrativa escorreita Ballester apresenta-nos os argumentos e enredos com que clero e nobreza pretendem evitar ou promover o que para uns é pecado e para outros o simples cumprimento da natureza. As lutas de bastidores, as intrigas, a ânsia de poder, as solicitações de autos de fé são os mesmíssimos na corte dos Áustrias como em qualquer grupelho político desses em que hoje votamos.

Título: Cronica del Rey Pasmado
Autor: Gonzalo Torrente Ballester
Data da obra original: 1989

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Dois modos de passar por aqui

Narciso, amante das catalogações, cientista, pensador. Goldmund, amante da natureza, sedutor, artista. Estes dois homens tão diferentes, opostos no jogo de artifício de Hermann Hesse (1877-1962), sentem-se atraídos um pelo outro. A um falta o que o outro tem.

O beijo de uma cigana e um conselho de Narciso encetam a errância de Goldmund na busca de si através dos sentidos, da sensualidade e da arte, da relação com os outros e da forma que os materiais ganham sob o trabalho das suas mãos.

É Goldmund quem encontra a mãe primordial, essa que sempre procurou e que nunca conseguiu representar, essa que dá um sentido à sua existência e que o chama de novo para dentro de si. No fim, pergunta ao amigo: «Como poderás morrer um dia, Narciso, se não tens Mãe? Sem Mãe não é possível amar. Sem Mãe não é possível morrer.» Não morre quem nunca viveu.


Título da edição lida: Narciso y Goldmundo
Autor: Hermann Hesse
Data da obra original: 1930 (Narziss und Goldmund)
Editora: Editorial Sudamericana
Tradutor: Luis Tobío

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Também Asperger

Em homenagem aos seus estudos de psicopatia autista, Hans Asperger (1906-1980) tem hoje o nome associado a uma síndrome pertencente ao espectro do autismo: a síndrome de Asperger. Mas este famoso psiquiatra infantil, director da Clínica de Educação Curativa da Universidade de Viena no período da anexação alemã,  mostrava-se no início da carreira avesso a diagnósticos e acreditava que a atenção e o cuidado necessários davam oportunidades de desenvolvimento a qualquer criança.

Entretanto, e num intervalo temporal bastante curto, as ideias nacional-socialistas foram-se tornando manifestas no conteúdo e na retórica dos seus textos. A partir de certa altura começou a defender que algumas crianças, pela sua associabilidade, eram casos perdidos e um fardo para a comunidade germânica (Volk). Hoje sabe-se que Asperger contribuiu para o programa de 'eutanásia' infantil levado a cabo no Terceiro Reich, tendo enviado, directa e indirectamente, várias crianças para a clínica de Spiegelgrund, onde algumas eram "educadas" e outras eram sujeitas a experiências científicas e paulatinamente debilitadas com barbitúricos até morrerem.

Há quem defenda que Asperger  não teve opção e que muitas das suas decisões foram até no sentido contrário, de proteger crianças em perigo.  Mas isso não justifica as que ele tomou com base no seu diagnóstico de "criança não educável". Asperger, que teve mesmo a coragem de não se inscrever no partido nazi nem de abandonar a prática católica durante todo o Terceiro Reich, nunca pôs em causa o regime e agiu sempre por moto próprio. Várias funções a que se foi candidatando exigiam uma atitude eugenista e ele sabia-o.


Título: Asperger's Children - The origins of autism in nazi Vienna
Autor: Edith Shaffer
Data: 2018
Editora: W. W. Norton & Company

Porventura

Empresários, advogados, médicos, economistas, jornalistas, ex-futebolistas, adeptos, adeptos, adeptos..., há comentadores da bola para tod...