segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Descendente de barão

Eulálio d'Assumpção, centenário orgulhoso e descendente de barão, derrama as suas memórias na cama do hospital onde a morte o espera. Repisa-as para não se esquecer de quem é: «Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço de alma, é por esmero. É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar.»

À medida que a medicação e a proximidade do fim lhe vão retirando lucidez, as memórias confundem-se, assim como se confundem aqueles com quem as partilha:  a enfermeira que melhor o trata, os outros enfermeiros e médicos mal-humorados, a filha, alguém que toma pelo pai assassinado há muito. Mas uma dessas memórias serve sempre de esteio a todas as outras: a do inesperado e repentino desaparecimento da sua mulher, a exuberante Matilde de «pele castanha», pouco depois do nascimento da filha de ambos.

O texto de Chico Buarque foge de um modo exímio à narrativa linear, plasmando o pensamento reinventado e confuso do velho moribundo e fixando de um modo natural o preconceito e a arrogância de um homem que se orgulha de descender de gente nobre e importante e que, apesar de tudo, não resiste aos encantos de uma bela mulata.

Leite Derramado
Chico Buarque
2009
D. Quixote

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Adolf e Gustl

August Kubizek e Adolf Hitler conhecem-se, ainda adolescentes, quando assistem a uma ópera em Linz. Estamos no final de 1904 e é o início de uma amizade assimétrica, assente no amor de ambos pela música e numa complementaridade feliz: Adolf precisa de alguém com quem partilhar as suas ideias e fantasias, August é  bom ouvinte e admira o espírito crítico e a confiança em si próprio que o outro demonstra.

No início de 1908, pouco depois da rejeição de Adolf pela Academia de Belas Artes de Viena e da morte da sua mãe, ele consegue convencer o pai de August a deixá-lo prestar provas no Conservatório em Viena. August é bem-sucedido e inicia os seus estudos musicais. Vivem juntos durante cinco meses num quarto infestado e escuro da capital austro-húngara, August seguindo uma educação formal, Adolf estudando e interessando-se literalmente por tudo, apesar de as suas paixões maiores serem a arquitectura e a política. As leituras ávidas, nos livros e na sociedade vienense, apuram o pensamento do futuro Führer.

A aversão a que o contradigam, as dificuldades económicas crescentes, talvez algum mal-estar face ao sucesso de August no Conservatório, precipitam a separação: durante uma ausência daquele, Adolf abandona o quarto que ambos partilham. O reencontro dá-se apenas trinta anos depois, após a anexação austríaca e às portas da Grande Guerra. As ideias e fantasias que Adolf erguera em jovem para o povo germânico estão em vias de concretização. E apesar de August garantir não concordar com muitas delas, é inegável ao longo do texto a amizade e a admiração que nunca deixou de sentir por Adolf Hitler.

The Young Hitler I Knew
August Kubizek
2011
Frontline Books
(Obra Original: Adolf Hitler, Mein Jugenfreund, 1953)

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A primeira maratona de um poeta


Turb(i)-, pode ver-se no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa, é um "elemento de formação de palavras que exprime a ideia de agitação, desordem". À entrada do seu primeiro romance, Chico Buarque apresenta-nos algumas palavras que esse elemento integra. Entre elas: estorvo, distúrbio, perturbação, turvo, turbulência, turbilhão, trovão, atropelo, tropel, torpor, estupor, estropiar.

Um homem bate à porta. Quem será? Lembra alguém. Tem barba. Talvez o protagonista "já tenha visto aquele rosto sem barba, mas a barba é tão sólida e rigorosa que parece anterior ao rosto". Num exercício onírico em que a escrita sobressai face ao enredo, o protagonista vagueia a partir daí, em fuga ou não, em busca ou não, desistente ou não, num mundo estranho. Ou talvez apenas num mundo que é um estorvo porque estorvo são os outros, ele próprio, a vida.

O texto é o da primeira maratona de um poeta: subserviente à narração, a linguagem não dá tréguas ao leitor. Nesse sentido, aqui e ali, a surpresa de me ter evocado uma outra obra cuja filigrana me enredou há uns tempos: "Um Pinguim na Garagem" de um tal de Luís Caminha.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O poder desnudado

O jovem D. Filipe, IV de Espanha, III de Portugal, encontra o paraíso nos braços da cortesã Marfisa. Saber-se-á por palavras desta que o soberano não o é em amores e que ao quarto ensaio nem chegou a arrancar. Mas também se saberá que tem potencial e que mais uns tantos encontros lhe ensinariam a agradar mulheres.

Seja como for, a perfeição para o rei foi o corpo nu da cortesã adormecida. De regresso ao palácio e guloso de beleza, faz a rainha saber que deseja vê-la nua. A novidade tem pavio curto e em breve todo o reino a comenta. E se o povo não acha nisso nada de mais, já na corte soa o alarme para as consequências que tamanho pecado teria nos destinos de Espanha. Deus não perdoa desaforos.

Com fina ironia, vocabulário original e narrativa escorreita Ballester apresenta-nos os argumentos e enredos com que clero e nobreza pretendem evitar ou promover o que para uns é pecado e para outros o simples cumprimento da natureza. As lutas de bastidores, as intrigas, a ânsia de poder, as solicitações de autos de fé são os mesmíssimos na corte dos Áustrias como em qualquer grupelho político desses em que hoje votamos.

Título: Cronica del Rey Pasmado
Autor: Gonzalo Torrente Ballester
Data da obra original: 1989

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Dois modos de passar por aqui

Narciso, amante das catalogações, cientista, pensador. Goldmund, amante da natureza, sedutor, artista. Estes dois homens tão diferentes, opostos no jogo de artifício de Hermann Hesse (1877-1962), sentem-se atraídos um pelo outro. A um falta o que o outro tem.

O beijo de uma cigana e um conselho de Narciso encetam a errância de Goldmund na busca de si através dos sentidos, da sensualidade e da arte, da relação com os outros e da forma que os materiais ganham sob o trabalho das suas mãos.

É Goldmund quem encontra a mãe primordial, essa que sempre procurou e que nunca conseguiu representar, essa que dá um sentido à sua existência e que o chama de novo para dentro de si. No fim, pergunta ao amigo: «Como poderás morrer um dia, Narciso, se não tens Mãe? Sem Mãe não é possível amar. Sem Mãe não é possível morrer.» Não morre quem nunca viveu.


Título da edição lida: Narciso y Goldmundo
Autor: Hermann Hesse
Data da obra original: 1930 (Narziss und Goldmund)
Editora: Editorial Sudamericana
Tradutor: Luis Tobío

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Também Asperger

Em homenagem aos seus estudos de psicopatia autista, Hans Asperger (1906-1980) tem hoje o nome associado a uma síndrome pertencente ao espectro do autismo: a síndrome de Asperger. Mas este famoso psiquiatra infantil, director da Clínica de Educação Curativa da Universidade de Viena no período da anexação alemã,  mostrava-se no início da carreira avesso a diagnósticos e acreditava que a atenção e o cuidado necessários davam oportunidades de desenvolvimento a qualquer criança.

Entretanto, e num intervalo temporal bastante curto, as ideias nacional-socialistas foram-se tornando manifestas no conteúdo e na retórica dos seus textos. A partir de certa altura começou a defender que algumas crianças, pela sua associabilidade, eram casos perdidos e um fardo para a comunidade germânica (Volk). Hoje sabe-se que Asperger contribuiu para o programa de 'eutanásia' infantil levado a cabo no Terceiro Reich, tendo enviado, directa e indirectamente, várias crianças para a clínica de Spiegelgrund, onde algumas eram "educadas" e outras eram sujeitas a experiências científicas e paulatinamente debilitadas com barbitúricos até morrerem.

Há quem defenda que Asperger  não teve opção e que muitas das suas decisões foram até no sentido contrário, de proteger crianças em perigo.  Mas isso não justifica as que ele tomou com base no seu diagnóstico de "criança não educável". Asperger, que teve mesmo a coragem de não se inscrever no partido nazi nem de abandonar a prática católica durante todo o Terceiro Reich, nunca pôs em causa o regime e agiu sempre por moto próprio. Várias funções a que se foi candidatando exigiam uma atitude eugenista e ele sabia-o.


Título: Asperger's Children - The origins of autism in nazi Vienna
Autor: Edith Shaffer
Data: 2018
Editora: W. W. Norton & Company

Porventura

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