quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Como um cão?


Segundo Trump, al-Baghdadi «[...] morreu como um cão, como um cobarde.» Esta afirmação vem na sequência de outra: «O homem morreu num túnel depois de chorar e gritar.» Antes de mais, gostaria de perguntar-lhe as causas de uma provocação gratuita e que de certeza tem em conta a animosidade de muitos muçulmanos para com os cães. Por que razão baixou ao nível do terrorista que se matou e confundiu justiça, que deve ser exemplo, com o sentimento de vingança, que deve ficar guardado nos corações de cada um?

De seguida, gostaria de perguntar-lhe como sabe ele que «o homem morreu num túnel depois de chorar e gritar». Toda a cena foi filmada a cores e com som como se se tratasse de um filme hollywoodesco a que ele tivesse assistido no conforto do seu sofá? Claro que essa perversidade, por mais desejada que fosse, é impossível. Que eu saiba, aliás, ainda ninguém confirmou essa afirmação desnecessária de um "presidente" sem bom senso.

Por fim, gostaria de informá-lo de que a cobardia é uma construção humana. Um cão luta pela sobrevivência, atacando, evitando ou fugindo. Mas tendo em conta essa estranha associação entre a cobardia e os cães: por acaso foi cobarde o cão que, a crer na sua própria divulgação, encurralou o terrorista?


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Para ser maior

Raskólnikov leva uma vida de extrema pobreza: abandona os estudos por falta de dinheiro, encosta o sono numa almofada de roupa velha, deve já várias rendas do cubículo que habita, come quando calha. Talvez seja tudo isto o alimento para a lição que retira da História: vários grandes homens, como ele crê ser, tiveram de cometer crimes no início da vida para poder cumprir o seu destino. E fizeram-no sem hesitações nem remorsos.

Decide seguir o exemplo e assassinar uma velha agiota, um ser menor, desnecessário, prejudicial à sociedade (um piolho, nas suas palavras) e cujo dinheiro pode ser usado em seu proveito e dos outros. Já de início, no entanto, hesita. E quando finalmente se decide, comete vários erros. O maior dos quais o de assassinar também  a irmã da agiota, que entretanto surge na cena do crime, a casa onde ambas vivem. A atrapalhação é tanta que, embora retire da casa algumas jóias e uma carteira, decide escondê-las até de si próprio.

A obra é uma longa viagem pela mente de Raskólnikov, os temores e as dúvidas que antecedem e, sobretudo, se sucedem ao crime. Talvez, afinal, ele não seja o grande homem que imaginou ser. Talvez por isso mereça o castigo que merecem os homens menores. E é ele  próprio que vai de encontro, aos poucos, desse castigo. O seu percurso é, no fundo, o de descobrir que também é um piolho. E a redenção só acontece no momento em que percebe que um homem banal também pode ser amado.

Crime e Castigo
Dostoiévski
Trad.: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editorial Presença, 2001




terça-feira, 3 de setembro de 2019

Piccolino

«Se conheço bem o meu senhor, ele não poderá passar muito tempo sem o seu anão». Quem o diz é o próprio anão, que vai descrevendo no seu diário o ódio e o nojo que sente pela espécie humana, incluindo ele próprio e os outros anões. No fundo, é o desprezo pela vulnerabilidade que perpassa este grande livro de Pär Lagerkvist (1891-1974).

Num dos antigos principados da actual Itália e numa época do Renascimento onde grassavam a fome, a guerra e a peste, o anão Piccolino é a personificação do mal. A publicação do livro em 1944 e o nosso próprio auto-conhecimento levam-nos a perceber que esse mal é intemporal. O mal é intrínseco à espécie humana.

Com Piccolino percebemos como cada um de nós tem a tendência, por mais longínqua que nos pareça, para comparar e catalogar. Para odiar o melhor porque é melhor. Para odiar o pior porque é pior. Para odiar o igual porque nos repete. Quem não tem um Piccolino dentro de si? Devemos estar sempre vigilantes para que ele não se manifeste.


O Anão
Pär Lagerkvist
Trad.: João Pedro de Andrade (original de 1944: Dvärgen)
Ed.: Antígona


segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

A transparência do essencial


Ainda antes de O Perfume (1985) e A Pomba (1987), Patrick Süskind encetava com este O Contrabaixo (1981) a sua análise do poder de pequenos pormenores e acontecimentos na vida das pessoas.

Pela posição, pela visibilidade e pela função, o contrabaixo dir-se-ia transparente. E, no entanto, é o único instrumento imprescindível, aquele sem o qual todos falhariam numa orquestra. Ele vinca e simboliza a existência do seu intérprete.

Talvez tenha de ser assim com muitos. São sempre necessários aqueles que acendem as luzes com que outros se iluminam. O drama é que não sejam e talvez não possam ser reconhecidos. Como as notas graves com que um contrabaixo é caminho.


El Contrabajo
Patrick Süskind
Trad.: Pilar Giralt Gorina (original de 1981: Der Kontrabass)
Ed.: Seix Barral


terça-feira, 2 de outubro de 2018

Obrigado, Shahnour


La bohème, Je me voyais dèjà, Comme ils disent, La mamma, Que c'est triste Venise, Tous les visages de l'amour, Hier encore... Diz-se que são à volta de mil as canções compostas. Muitas delas poderiam ser a única para não o esquecermos.

Os erros no passado, a mulher, o amor perdido, a vida no seu final, a paixão secreta, o crença no futuro, o sucesso sonhado no quotidiano raso: a sua voz é o inventário das nossas vidas.

Obrigado, Shahnour Vaghinagh Aznavourian, por também teres sido Charles Aznavour.

sábado, 15 de setembro de 2018

Quase tudo isto

Durante alguns anos, Bill Bryson decidiu compreender melhor a "história" do universo, desde o Big Bang até o aparecimento e evolução do homem. E como tinha dificuldade em compreender a literatura sobre os temas em causa, decidiu ser ele a abordá-los.

O resultado é o seu A Short History of Nearly Everything. Escrito por um leigo, é de leitura fácil e estimulante. Também não parece conter grandes incorrecções: as que se encontram são as da própria ciência, que de 2003 para cá, como não podia deixar de ser, foi actualizando as suas incorrecções.

A narração das ideias e descobertas que nos ajudam a compreender o mundo é feita sempre com o foco nas personalidades e contradições, generosidades e ódios, ambições e desapegos dos seus protagonistas. E talvez o maior interesse deste livro esteja mesmo nesta verdadeira história, a"pequena história" dos homens que vêm aumentando o nosso conhecimento de quase tudo.

A Short History of Nearly Everything
Bill Bryson
Black Swan
2004 (1.ª ed.: 2003)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Adolescência roubada

Quatro de agosto de 1944. Vinte e cinco meses após se terem escondido num anexo secreto dos escritórios da Opekta, Anne Frank e mais sete pessoas, entre as quais os pais e a irmã, são descobertos e presos pelos nazis. Com excepção de Otto, o seu pai, todos morreriam nos campos de extermínio para onde foram enviados. Anne Frank e a irmã Margot sucumbiriam ao tifo que alastrou em Bergen-Belsen no inverno de 1944/1945.

Mas não caiu nas mãos dos nazis um pedaço da vida de Anne: o diário que ela manteve entre 12 de junho de 1942, data do seu décimo-terceiro aniversário, e 1 de agosto de 1944. Esquecido no anexo e recuperado mais tarde pelo pai, é o testemunho de uma adolescência roubada. Nele, Anne vai dando conta dos conflitos entre os habitantes confinados ao anexo; das discussões acerca de temas tão díspares como a política, a guerra, as refeições; do uso cuidadoso do autoclismo para não chamar a atenção dos funcionários em baixo; dos sonhos adiados; dos planos para o futuro; da impossibilidade de ter um espaço para si; da tristeza e da esperança; do medo e do alívio. Kitty, a personagem que ela inventa por trás das páginas do diário, é quem que lhe permite lidar com tudo isto.

Na primavera de 1944, Anne Frank começa a rever o seu diário. Tem a intenção de dá-lo a conhecer ao mundo depois da guerra. Esta é a versão dita definitiva, sem os cortes e correcções a que o pai o sujeitaria antes de o publicar em 1947. A descoberta da sexualidade; a atracção por Peter, outro dos habitantes do anexo; a relação difícil com a mãe – tudo aqui volta a ser confessado a Kitty. Tudo aqui é revivido por esta infeliz rapariga que nos retratos nos aparece sempre com um sorriso, um suave e contido sorriso, e cujas palavras nunca desistem da vida.


The Diary of a Young Girl
Anne Frank
Eds. Otto J. Frank, Mirjam Pressler
Trad. Susan Massotty
2012
Original: Het Achterhuis [O Anexo Secreto]

Porventura

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