quinta-feira, 30 de abril de 2020
Usar máscara e estar mascarado
Vai-se instalando a ideia de que os portugueses têm tido um comportamento exemplar nesta pandemia. Talvez não seja tanto assim. Basta ir a um hipermercado para verificar que a maioria não sabe o que são dois metros de distanciamento ou, sabendo-o, pensa que o vírus não lhe sai da boca e só viaja quando dois pares de olhos se encontram. Basta um passeio ou meia hora de exercício na rua para perceber que a lei é esperar que seja o outro a desviar-se.
Convenhamos que, neste contexto, os governantes, presidentes, responsáveis e quejandos mostraram ser bons aprendizes e óptimos modelos. Navegando à vista, assistiram por sorte ao início do caos noutros países europeus. Não precisaram de planear: reagiram apenas ou seguiram as directivas da OMS, mesmo as menos brilhantes, como a de não aconselhar o uso de máscaras. Resta saber se esse 'desaconselho' se deve a um preconceito relativamente à inteligência do povinho para as utilizar, se à ausência de máscaras para distribuir.
Os que nos governam têm demonstrado, aliás, o que pensam das máscaras: uns objectos pouco dignificantes para aqueles que, como eles, são dignos. Enfim, é coisa para outros. Como dizia há dias a segunda figura do Estado Português, a propósito da comemoração do 25 de abril na Assembleia da República, "Então nós íamos mascarados para o 25 de abril?" Talvez ignore que o uso de máscaras serve, acima de tudo, para proteger os outros. Talvez ignore que só com muito esforço 'estar mascarado' tem 'usar máscara' como primeira acepção.
quarta-feira, 6 de novembro de 2019
Pra não falar que ninguém fica, não é?
«O peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê a manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo. Então, obviamente que você pode consumir o seu peixinho, não é?, sem problema nenhum, lagosta camarão, tudo perfeitamente são, capitão.»
«Obviamente, de vez em quando fica uma tartaruga, ali na mancha de óleo, para não falar que ninguém fica, não é? Um peixe... Um golfinho pode ficar... Mas tudo bem...» Ó Jorge, vamo almoçar?
Vamo sim, capitão. Mas não tem peixe aqui. Fugiram das redes, os inteligentes. Capitão, pra comer só tem nós. Pra não falar que ninguém fica, não é?
quinta-feira, 31 de outubro de 2019
Epifanias
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A proposta é a de uma ausência de literatura. Mas é uma proposta mal sucedida: os doze episódios do livro são percorridos por desempregados, alcoólicos, divorciados e desentendidos, gente fazendo pela vida sob uma pena que, além de dominar os segredos do diálogo e da narrativa, detém a mestria da sua conjugação.
Acresce que resultam epifanias e redenções de pequenas quebras de rotina, de frases simples, de gestos previsíveis. E também aqui há literatura.
Catedral
Raymond Carver
Trad.: João Tordo
2010 (original: 1983)
quarta-feira, 30 de outubro de 2019
Como um cão?
Segundo Trump, al-Baghdadi «[...] morreu como um cão, como um cobarde.» Esta afirmação vem na sequência de outra: «O homem morreu num túnel depois de chorar e gritar.» Antes de mais, gostaria de perguntar-lhe as causas de uma provocação gratuita e que de certeza tem em conta a animosidade de muitos muçulmanos para com os cães. Por que razão baixou ao nível do terrorista que se matou e confundiu justiça, que deve ser exemplo, com o sentimento de vingança, que deve ficar guardado nos corações de cada um?
De seguida, gostaria de perguntar-lhe como sabe ele que «o homem morreu num túnel depois de chorar e gritar». Toda a cena foi filmada a cores e com som como se se tratasse de um filme hollywoodesco a que ele tivesse assistido no conforto do seu sofá? Claro que essa perversidade, por mais desejada que fosse, é impossível. Que eu saiba, aliás, ainda ninguém confirmou essa afirmação desnecessária de um "presidente" sem bom senso.
Por fim, gostaria de informá-lo de que a cobardia é uma construção humana. Um cão luta pela sobrevivência, atacando, evitando ou fugindo. Mas tendo em conta essa estranha associação entre a cobardia e os cães: por acaso foi cobarde o cão que, a crer na sua própria divulgação, encurralou o terrorista?
sexta-feira, 27 de setembro de 2019
Para ser maior
Raskólnikov leva uma vida de extrema pobreza: abandona os estudos por falta de dinheiro, encosta o sono numa almofada de roupa velha, deve já várias rendas do cubículo que habita, come quando calha. Talvez seja tudo isto o alimento para a lição que retira da História: vários grandes homens, como ele crê ser, tiveram de cometer crimes no início da vida para poder cumprir o seu destino. E fizeram-no sem hesitações nem remorsos.
Decide seguir o exemplo e assassinar uma velha agiota, um ser menor, desnecessário, prejudicial à sociedade (um piolho, nas suas palavras) e cujo dinheiro pode ser usado em seu proveito e dos outros. Já de início, no entanto, hesita. E quando finalmente se decide, comete vários erros. O maior dos quais o de assassinar também a irmã da agiota, que entretanto surge na cena do crime, a casa onde ambas vivem. A atrapalhação é tanta que, embora retire da casa algumas jóias e uma carteira, decide escondê-las até de si próprio.
A obra é uma longa viagem pela mente de Raskólnikov, os temores e as dúvidas que antecedem e, sobretudo, se sucedem ao crime. Talvez, afinal, ele não seja o grande homem que imaginou ser. Talvez por isso mereça o castigo que merecem os homens menores. E é ele próprio que vai de encontro, aos poucos, desse castigo. O seu percurso é, no fundo, o de descobrir que também é um piolho. E a redenção só acontece no momento em que percebe que um homem banal também pode ser amado.
Crime e Castigo
Dostoiévski
Trad.: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editorial Presença, 2001
Decide seguir o exemplo e assassinar uma velha agiota, um ser menor, desnecessário, prejudicial à sociedade (um piolho, nas suas palavras) e cujo dinheiro pode ser usado em seu proveito e dos outros. Já de início, no entanto, hesita. E quando finalmente se decide, comete vários erros. O maior dos quais o de assassinar também a irmã da agiota, que entretanto surge na cena do crime, a casa onde ambas vivem. A atrapalhação é tanta que, embora retire da casa algumas jóias e uma carteira, decide escondê-las até de si próprio.
A obra é uma longa viagem pela mente de Raskólnikov, os temores e as dúvidas que antecedem e, sobretudo, se sucedem ao crime. Talvez, afinal, ele não seja o grande homem que imaginou ser. Talvez por isso mereça o castigo que merecem os homens menores. E é ele próprio que vai de encontro, aos poucos, desse castigo. O seu percurso é, no fundo, o de descobrir que também é um piolho. E a redenção só acontece no momento em que percebe que um homem banal também pode ser amado.
Crime e Castigo
Dostoiévski
Trad.: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editorial Presença, 2001
terça-feira, 3 de setembro de 2019
Piccolino
«Se conheço bem o meu senhor, ele não poderá passar muito tempo sem o seu anão». Quem o diz é o próprio anão, que vai descrevendo no seu diário o ódio e o nojo que sente pela espécie humana, incluindo ele próprio e os outros anões. No fundo, é o desprezo pela vulnerabilidade que perpassa este grande livro de Pär Lagerkvist (1891-1974).
Num dos antigos principados da actual Itália e numa época do Renascimento onde grassavam a fome, a guerra e a peste, o anão Piccolino é a personificação do mal. A publicação do livro em 1944 e o nosso próprio auto-conhecimento levam-nos a perceber que esse mal é intemporal. O mal é intrínseco à espécie humana.
Com Piccolino percebemos como cada um de nós tem a tendência, por mais longínqua que nos pareça, para comparar e catalogar. Para odiar o melhor porque é melhor. Para odiar o pior porque é pior. Para odiar o igual porque nos repete. Quem não tem um Piccolino dentro de si? Devemos estar sempre vigilantes para que ele não se manifeste.
O Anão
Pär Lagerkvist
Trad.: João Pedro de Andrade (original de 1944: Dvärgen)
Ed.: Antígona
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
A transparência do essencial
Ainda antes de O Perfume (1985) e A Pomba (1987), Patrick Süskind encetava com este O Contrabaixo (1981) a sua análise do poder de pequenos pormenores e acontecimentos na vida das pessoas.Pela posição, pela visibilidade e pela função, o contrabaixo dir-se-ia transparente. E, no entanto, é o único instrumento imprescindível, aquele sem o qual todos falhariam numa orquestra. Ele vinca e simboliza a existência do seu intérprete.
Talvez tenha de ser assim com muitos. São sempre necessários aqueles que acendem as luzes com que outros se iluminam. O drama é que não sejam e talvez não possam ser reconhecidos. Como as notas graves com que um contrabaixo é caminho.
El Contrabajo
Patrick Süskind
Trad.: Pilar Giralt Gorina (original de 1981: Der Kontrabass)
Ed.: Seix Barral
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